
1,2,3,4!!! Marquinhos Espíndola comemora 3 anos da Contracapa no dia 26 em Floripa
Ele é um jornalista de baixa estatura, mas com uma visão além do alcance de muita gente. Batalhador que já passou por redações de jornais pequenos, médios, grandes e também assessoria política, Marquinhos mantém no Diário Catarinense, um dos jornais com maior circulação no Estado catarinense, a coluna diária Contracapa. Há três anos o cara assumiu a bronca por convite do mestre Dorva Resende, editor do Variedades, onde implementou um ritmo forte para revelar e divulgar a música e toda produção cultural catarinense, indo além dos bons sons, para o cinema, teatro e a televisão. Este ano, depois de quase três anos na batalha, o nosso pequeno grande Marcilista nascido em Santos, botou no ar, na Rede Atlântida, o programa Paredão, onde mostra todos os sons que fala na sua coluna. Mundo47 entrevistou Marcos Espíndola na sacada de seu imenso flat em Capoeiras, onde falou como tudo começou, sobre a cena atual catarina e claro, sua Contracapa. Para nossa alegria, além de Marcilista, Marquinhos é torcedor do Flamengo no restante do ano. Esse é o cara.
Mundo47: Marquinhos, como surgiu a idéia e o convite para o DC fazer a Contracapa?
R: Como tudo na minha trajetória nestes sete anos de DC. Recebi a missão (convite) do editor do Variedades, o Dorva Rezende, que há muito tempo alimentava a idéia de implantar no Variedades uma coluna da “franquia” Contracapa (que começou no DC). Um espaço que se propusesse a catalisar tudo aquilo que de certa forma fugia a cobertura do próprio caderno, que se permitisse a opinião, a formentar idéias e revelar esta nova geração artística que surge no Estado. Uma geração cosmopolita, situada no espaço e tempo. Confesso que fazer coluna não era muito a minha praia, mas encarei o desafio com a perspectiva de fazer dessa experiência uma exercício de jornalismo, onde a premissa principal é o interesse coletivo, o fato jornalístico. Fazer a Contracapa não foi o acaso, mas a conseqüência de um acaso que quatro anos antes, quando por três ocasiões eu fui interino da coluna do Cacau Meneses. Uma casca, sujeita a bajulações homéricas, reconhecimentos pirotécnicos, mas críticas abaixo da cintura. Uma experiência “bipolar” eu diria (risos). Já estava cansado disso, até que na última oportunidade o Dorva me convenceu a fazer a coluna (do Cacau) para em seguida começarmos a pensar na Contra. Aquela última interinidade (em 2006) serviu como um laboratório para a Contracapa. Aí sim a coisa esquentou!
Mundo47: Antes da Contracapa, qual era teu conhecimento do cenário rock and roll de Santa Catarina? A coluna lhe abriu os olhos para a cena rock?
R: A coluna, assim como hoje o Paredão Contracapa, programa que eu e o Kleber Saboia levamos todos aos sábados ao ar na Atlântida, dissipou uma densa neblina que me impedia de enxergar este produtivo universo. Mas eu não estava tão alheio assim, como trabalhei por quatro anos em Blumenau, conhecia um pouco aquele cenário, como Madeixas, Sodda Café, de Floripa tinha Os Pistoleiros (que fui conhecer em Blumenau), Udigrudis e Guta Percha. Claro, lá atrás tinha os Stonkas & Congas e o Dazaranha, com o qual tive um convívio muito próximo quando passei uma temporada em 1993 em Floripa me preparando para o Vestibular. Quando eu retornei a Floripa 10 anos depois, aproveitei muito pouco o Underground Bar, apenas duas ocasiões e logo ocorreu aquela episódio triste do fechamento da casa. De Joinville mesmo só o Reino Fungi e Os Legais (do oito ao oitenta, veja você..eheheh).
Mas com a coluna me empreendi ao desafio de conhecer e compartilhar. Abri o espaço para que todas estas mobilizações artísticas em curso nos “bastidores” da cidade se manifestassem, pois isso já estava presente na minha vida. As informações chegavam, o silêncio havia sido rompido. A Contra sempre foi um espaço de construção coletiva, e estes novos agentes vindos dos campos do cinema, do teatro, das artes visuais e principalmente a música entenderam isso e aceitaram compartilhar este desafio. Quando eu digo construção coletiva é no seu sentido mais amplo, inclusive no suporte de companheiros da mídia, como o Fábio Bianchini e o Emerson Gasperin. Logo no início da jornada acabei esbarrando no primeiro cruzamento com um outro recém-criado projeto, o Clube da Luta, que se propunha também a mexer com as coisas e promover uma discussão, à época urgente, acerca da valoriação da música autoral e da promoção dos novos artistas. O que veio a seguir vocês todos sabem…Gasolina e fogo.
Mundo47: Qual avaliação que você faz do seu trabalho perante as bandas catarinas nestes três anos?
R: Na boa, meu trabalho é reflexo dessa produção. Se a nossa música não se respaldasse de nada adiantaria eu ficar falando e promovendo este cenário. O reconhecimento da Contracapa é reflexo da legitimidade desta geração artística. Isso não é demagogia. É a constatação de quem vive isso diariamente. Bicho, dias desses eu conversava com o Noventa (músico, da banda Cochabambas) e ele me chamou a atenção e boa parte do conteúdo da Contra ser de informações locais. E isso é fato,não é forçação, acontece naturalmente. A prerrogativa da Contra sempre foi revelar esta “nova guarda”, promovendo a produção artística no Estado, essa que até então muitos julgavam que não existia. Mas existe, e é latente meu caro. Olha, 90% do conteúdo diário seguramente é regional (digo, Floripa e Estado) e felizmente posso me dar ao luxo de chegar a 100% se for o caso. Mas Contra também se presta a fazer este link com o mundo, com as manifestações que reverberam pelo país e planeta, essas referências que hoje estão muito presentes em nossas vidas, incluindo claro a internet.
Daí é que fiz da Contra uma trincheira contra esse pensamento tacanho, vil e dissimulado de que “nada ocorre no Estado”. É o pacto da mediocridade, das igrejinhas que se instalaram em âmbitos diversos para se autopromoverem e fazer uma reserva de mercado. E faço uma autocrítica aqui como um agente de mídia tradicional: os meios de comunicação compraram esta idéia e por muito tempo foram massa de manobra nas mãos dessa gente. Só para citar que até pouco tempo qualquer casa que aparecesse na cidade, principalmente voltada para a promoção da música independente, de shows e tal era frontalmente sabotada na ação destes segmentos até então “soturnos”. Aí que para a minha alegria, hoje eu reconheço em cada ponto do Estado uma ação coletiva de bandas. Seja em Criciúma, Floripa, São José, Balneário, Itajaí, Rio do Sul, Blumenau, Timbó, Joinville, Chapecó. Dá para apontar qualquer ponto no mapa do Estado e você encontrará algo muito bacana acontecendo.
Mundo47: O que você acha que deve acontecer para a cena independente catarinense deslanchar?
R: Conexão, network, é as bandas entenderem que precisam perder a vergonha, trabalhar a autoestima e se venderem lá fora. Trabalhar parcerias com bandas e coletivos de outras regiões, assim como daqui de dentro também, promovendo um circuito. Não dá para nos lançarmos na empreitada maluca de se fazer aqui um grande festival ou estabelecer uma “cena bit” (veja o caso do Mané Bit, que foi constrangedor). Nosso Estado tem uma formação diferente. Cada região conta com características culturais distintas, dada a sua própria formação, que vai da descendência açoriana à italiana, alemão e austríaca, incluindo aí a recente influência vinda de outros grandes centros que só tornam este caldeirão que é Santa Catarina ainda mais pitoresco. Então o que fazemos? Vamos trabalhar um circuito, vamos ligar estes pólos, promovendo a diversidade. As bandas precisam ocupar estes espaços, nãos e impondo,mas se promovendo nas suas diferenças conceituais. Pois o talento é latente. Você pode muito manter manter um circuito nas cidades pólos, garantindo uma média digna de público (algo de 300 pessoas) por shows, onde uma banda de Rio do Sul pode se apresentar em Criciúma e na semana seguinte esta mesma banda leva a anfitriã do Sul para o Vale. É assim que ocorre hoje nos Estados Unidos, por exemplo. A experiência do Cassim & Barbária na tour deles em março passado revelou isso. E as bandas hoje contam com a internet ao seu favor, para mobilizar, fazer contatos e criar conexões.
Mundo47: Que bandas você apontaria em SC que podem e tem potencial para virar mainstream de vez?
R: Não sei, porque eu não acredito no mainstream. Ainda mais diante deste quadro de incertezas e possibilidades que a revolução digital proporciona. Sabe, bandas com potencial para fazer um grande trabalho são muitas, cito Liss, Calvin, Stereotape Killers, Lenzi Brothers, Coletivo Operante, Aerocirco, Cassim & Barbária, Repolho, Blasè, Estrutura L.I.M.B.O., Maltines, Alva, nossa me perdoem se eu esqueci alguém. Mas a questão meu velho é o que a banda quer para si? O que ela entende por sucesso, porque você pode seguir um caminho no universo independente que pode te proporcionar mais retorno do que se estiver no grande esquema. Sabe, eu vejo que o caminho é seguir uma outra via, como advoga o Wander Wildner. Como é que tu vais falar para uns caras da Lenzi Brothers que eles tem potencial para chegar ao grande mercado, que hoje promove esse bufões semianalfabetos da Fresno, ou o pop raso do Armandinho? Cara, não dá né? O mesmo vale também para o “mainstream” independente, do tal circuito de grandes festivais, bancados por editais milionários, mas que obriga as bandas a se sujeitarem a tocar de graça, tendo inclusive que pagar suas despesas.. Qual o próximo passo? Cobrar jabá das bandas?Se é que já não esteja ocorrendo. Então é isso cara, com a morte do Michael Jackson morreu um modelo. E a idéia é construir um modelo para si, por isso eu acho bastante relativo esta idéia de estourar. Só depende dos contatos, da sua capacidade de se relacionar com outras frentes e isso é preponderante para dar uma dimensão até onde você pode chegar.
Mundo47: Neste tempo de Contracapa você agitou a cena com discussões como o Lero Lero Musical. Qual avaliação você faz destes debates?
R: Foi outra ação que ajudou a estreitar os laços entre a Contra e o seu universo de leitores e colaboradores. Lembro do primeiro, cuja pauta era a eterna discussão “da cena”. Este assunto já foi superado,mas corriqueiramente volta ao tema em cada debate. O espaço foi de um auxílio fantástico, de gente que acreditou, como as jornalistas Fernanda Lago e Antoninha Santiago, que são parcerias diretas neste projeto. Foi bacana para fomentar boas discussões que geraram muitas ações locais, além de construir uma ponte entre a nossa realidade e a experiência de outras regiões. No início deste mês trouxemos novamente o jornalista Alexandre Matias, blogueiro e editor do caderno Link do Estadão que se juntou com o Guilherme Zimmer (músico, produtor e cabeça do projeto SC Conectada) e o Jean Mafra (músico e articulador do Fórum Música para Baixar) para discutirmos justamente estes assuntos tratados até agora por você, o desafio de fazer música neste ambiente digital e qual o modelo a ser adotado. Felizmente saímos sem soluções. Porque solução você constrói, não é? E a minha solução não necessariamente é a sua..ehehe
Mundo47: Além de um blog, você também ganhou um programa na Rede Atlântida. Quais são os novos projetos para a Contracapa?
R: Eu acho que esta convergência de conteúdo entre o DC (Contracapa) e a rádio (Altântida) fecha o cliclo de maturação do projeto Contracapa. O Paredão Contracapa deu um novo up na minha visão do que que está ocorrendo no Estado. Fui elencado a um outro nível de contato e conhecimento da produção regional. Eu que achava que sabia de algo por conta da Contracapa, agora novamente cheguei aquela doce e gostosa conclusão de que há muito ainda a ser desbravado, fuçado, divulgado. Até porque meu caro, a hora que o “faro” der sinais de falha e a visão apertar eu paro, passo o espaço adiante. Porque tanto na coluna quanto na rádio ambos os projetos são espaços de construção coletivas, que se moldaram de acordo com a visão de quem lê e ouve. E não importa mais se será o Marquinhos Espíndola ou o Mekron no volante da Kombi, a estrada já foi pavimentada e foi pelo público. Qualquer guinada não será tão fácil. Acho que esta foi a minha modesta contribuição para esta espaço, em retribuição a todos que abraçaram esta causa. E a idéia daqui para frente é trabalhar forte na consolidação destes projetos (coluna, Blog e rádio) aproveitando ao máximo as suas possibilidades de criação. O Paredão, passados seis meses entrou em rede estadual, fruto da legitimidade da produção catarinense, e agora se prepara para lançar o primeiro EP da série destacando as bandas que passaram pelo programa. A primeira seleção já está definida: Calvin, Coletivo Operante, Lenzi Brothers e Liss. Esperamos lançar em outubro.
Mundo47: Qual avaliação você faz do fim do Clube da Luta em Florianópolis e o que você acha que pode acontecer com o SConectada?
R: O Clube teve a percepção de enxergar que era necessário se reinventar para buscar aquilo que se propôs há muito tempo, profissionalismo. E para isso teve que matar uma fórmula que se desgastou embora em tão pouco tempo (três anos). E nada mais natural que se desgaste em pouco tempo, diante de uma ação tão intensa e discursiva, que conseguiu atrair novamente o foco da mídia para uma questão tão relevante: a valorização da nossa arte. Agora surge como ESCUTE!, algo realmente desafiante, talvez o batismo de fogo deste coletivo que busca um caminho digamos mais tradicional para se efetuar no mercado. Virar selo e produtora pressupõe uma mudança de mentalidade e de postura fundamental, que não seria possível com o Clube. A “morte” do Clube tem um efeito muito mais que simbólico.
E aí vem a ação da SC Conectada que é outra frente que tende a contabilizar bons frutos. O propósito é mapear no Estado estes coletivos artísticos, com vistas para um fórum permanente de discussão e de entrosamento. A idéia inicial é conhecer e estabelecer este circuito no Estado, saindo do foco centralizador. O Zimmer foi muito feliz ao levar este projeto para a Feira de Música de Fortaleza, que foi muito bem recebido por agentes culturais, produtores, patrocinadores e agências de fomento e finalmente fincou a bandeira de Santa Catarina no mapa da articulação musical no país. Porque meu velho, musicalmente o Acre existe, Santa Catarina ainda não! Eu me engajei nessa, assim como você. Inclusive, o Rubão (Herbst, do A Notícia) está nos cobrando aquela reunião do coletivo de mídias…

Ping Pong (mais pong do que ping)
1.Nome:Marcos Espíndola
2.Idade: 35 anos
3.Cidade que nasceu: Santos (SP)
4.Qual seu beatle predileto?: John Lennon
5.Banda preferida: Ramones
6.Banda catarinense preferida: WWDiablo
7.Cinco discos que levaria para uma ilha deserta: Rock to Russia (Ramones), Tecnicolor (Mutantes), Abbey Road (Beatles), Little Walter (The Best), qualquer um da Nina Simone e A Love Supreme (John Coltrane).
8.Cinco discos que queimaria no mármore do inferno: O novo dos Mutantes (junto com o Sérgio Dias), Zie e Zii do Caetano, qualquer um da Bebel Gilberto, qualquer um do Armandino e qualquer um produzido pelo Rick Bonadio (ou melhor, queimaria o próprio).
9.Time do coração: Até abril é o Marcílio Dias.. O restante do ano Flamengo.
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Paredão Contracapa - Todos os Sábados, 20 horas na Rede Atlântida FM (em Florianópolis, Blumenau, Joinville, Criciúma e Chapecó)