
Por Alexandre Lima *
Como nunca havia ido a show nenhum no pomposo Teatro Micaelense, cheguei cedo. Num ar de total estranhamento, perambulei pelos corredores até me ver “desarido” no hall de entrada quando notei uma mesinha com camisetas do Tindesticks. Me aproximei e comecei um agradável papo com Ian, road manager ou vendedor de camisetas (whatever), enquanto observávamos uma estranha platéia ir chegando aos poucos. Muita gente bem vestida” e “a lot of seniors” como observou o tal Ian. Fui sem grana, nada de camisetas ou cds.
Chegada a hora, lugarzinho marcado, aviso de “nada de telemóveis ou imagens não autorizadas” … Tá bom, tá bom … é um show! Chega de frescura, pô! Mas antes que eu tivesse tempo de me aborrecer, entra o simpático David Kitt pra fazer o show de abertura. Bela surpresa! O show dele começou mais ou menos assim:http://www.youtube.com/watch?v=J9URQWaNeo8 ou http://www.youtube.com/watch?v=usLBuZgbeUo , só o cara e a guitarra. Depois, ele ligou um laptop pra fazer umas bases. Bastante feeling, gostei mesmo. http://www.myspace.com/davidkitt
Depois de um intervalo de quase meia hora, o povo se acomoda nas cadeirinhas outra vez, as luzes se apagam e uns senhores muito bem vestidos vão um a um ocupando os seus lugares ao palco abaixo de uma generosa salva de palmas. Primeiro, piano e cello, depois, baixo e bateria abrem com a intro do novo disco “The Hungry Saw” em um clima pra lá de introspectivo. Em seguida, entra o resto da banda e Mr. Stuart Staples (com a menor pinta de quem vai pra bordel) ovacionado calorosamente. Segue-se “Yesterday Tomorrows”, também do disco novo. Pandeiro na mão, Mr. Staples mostra ao que veio: Sua característica voz de barítono continua em ótima forma e o carisma é deixado somente para a entrega à música em si, com a comunicação limitando-se ao nome de algumas músicas e reservados “thank you” ao final das mesmas.
O repertório é baseado no lançamento mais recente e deixa a grande maioria com olhares curiosos, mas mesmo assim, reverentes. O que chamou a minha atenção foi o modo como a dinâmica dos instrumentos é usada. A formação atual dos Tindersticks centra-se em três integrantes originais, mas no palco são sete. Stuart, além dos gravíssimos vocais, toca guitarra acústica, elétrica, pandeiro e maracas. Bateria, baixo e guitarra prestavam seus serviços de forma muito elegante e eficiente. À esquerda do palco, duas figuras razoavelmente calvas revezavam trompete, sax barítono e alto, cello e percussões. Ao fundo, outro integrante original comandava piano rhodes, sinths e xilofone. Achei que a escolha da instrumentação foi muito bem adequada ao que pedia cada canção. Uma banda como os Tindersticks, que tem um repertório majoritariamente lento tem que ter muito cuidado pra não ter um show “morto” demais. Esse cuidado foi tomado, ao que dei graças. Estava com medo de ficar sonolento já que não sou nada acostumado a ver show sentadinho numa poltrona. Por momentos, apavorei a senhora do meu lado com a minha agitação. Ao início das músicas, mesmo as mais paradas, Stuart proferia um ramonesco: One, Two, Tree, Four.
Em “City Sickness”, aplausos fortes ao reconhecimento dos primeiros acordes. Me surpreendeu o número de fãs, que ao final, não fizeram um segundo de silêncio até o encore, que veio com a lindíssima “Tiny Tears” (um “WOOO-HOO” bem atrás de mim acusava um fã satisfeito). “Boobar” do novo album, fechou a noite. Voltei a pé pra casa com a alma inundada de música e os quadris doloridos da cadeira.
* Alexandre Lima é o lendário Lima, que até pouco tempo atrás residia em Santa Catarina e tocou em lendárias bandas muito respeitadas por Mundo47 como Minds Away, The Selves, Spengler Tenglers, Cuba Drinker and The Hi-Fi´s e outras. Atualmente o rapaz mora numa das ilhas portuguesas de Açores.