
Sempre que pode, ou tem tempo, o site Mundo47 vai a fundo para saber como pensa, como age e como são os artistas catarinenses da cena rock. Em outubro ficamos surpresos com a saída de Thiago Japa da formação da DOIS, uma das bandas mais promissoras que estavam atuando em nosso estado nos últimos dois anos. A banda conquistou o público e a crítica pela simplicidade e o carisma de seus integrantes. Voz marcante, compositora revelação, Indy Müller foi a única sobrevivente da DOIS, porém o fim foi decretado, eminentemente.
Indy Müller é gaúcha, mas está radicada na capital catarinense há um bom tempo, tocou na banda Reverberia antes de formar a DOIS. Mundo47 enviou para Indy algumas perguntinhas, onde falamos sobre o fim da banda, projetos futuros, composições e a cena local. Nesta segunda-feira, 14 de novembro, Indy inicia uma nova etapa em estúdio, agora sob novo nome, o projeto “In”. Confira a conversa com a Indy.
Mundo47 - Conte como foi o fim da DOIS? Porquê uma banda tão promissora acabou?
Indy Müller - Quando cheguei a Florianópolis eu tive uma banda chamada Reverberia, uma banda de rock. Inicialmente era só eu e meu namorado na época, depois conhecemos o Thiago (Japa) no show do The Cardigans, ele entrou na banda e tudo começou. Quando a Reverberia terminou, por motivos muito alheios à minha vontade, eu lembro muito bem das palavras do Thiago, ele disse “o que você for fazer de música eu gostaria de participar”. Eu lembro de ter dito que eu só queria tocar minhas musiquinhas no violão, nada além disso, e ele topou. E foi assim que começou a Dois, foi muito natural, a gente tirou muita onda, curtimos muito. Inclusive foi o Thiago que escolheu este nome. Então quando ele saiu, um cara que foi tão parceiro e importante, vi que não fazia sentido continuar sem ele.
Mundo47 - Você consegue apontar um motivo para o fim?
Indy Müller - O Thiago quem quis sair. Eu havia notado que ele estava um pouco desanimado. Percebi que ele estava precisando dar atenção para outras coisas na vida dele. Mas esperei ele se manifestar. Um dia antes de me dizer que não queria mais, tínhamos ensaiado com um baterista e um tecladista, e foi lindo, eu fiquei muito feliz naquele dia. Mas daí ele veio conversar e resolveu. Eu fiquei muito triste e surpresa de certa forma, mas eu respeito à decisão dele e agradeço pelo tempo que tocamos juntos. Algumas pessoas me falaram “é só uma banda Indy”, será?
Mundo47 - Os integrantes da banda foram saindo e você foi sobrando, apesar de ter começado o grupo, você se sentiu sozinha?
Indy Müller - Bem, quando o Dani e o Henrique entraram ficamos muito felizes, e foi com essa formação que tivemos nossas maiores conquistas, mas depois de um tempo resolvemos voltar às origens da DOIS. E no momento deu bastante certo, gravamos música nova, fomos tocar no RS e em SP. Quanto a me sentir sozinha, bem, tem uma frase do Fernando Pessoa que gosto muito, diz assim “Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho”. Pelo menos pra mim o processo inicial de composição sempre foi muito solitário, mas depois que a idéia está pronta nos meus rabiscos eu sempre precisei de mais gente comigo pra fazer acontecer. Eu não sou uma boa instrumentista, eu não sou cantora, eu sou compositora, e assumir isso foi muito importante pra mim.

Mundo47 - Foi difícil dar um basta no nome DOIS?
Indy Müller - Foi sim, mas o pessoal que acompanhava nosso trabalho me deu força pra continuar, daí já me empolguei, a música continua dentro da minha cabeça e do meu coração, eu sou bem hippie mesmo, bem Phoebe (Friends), nem tô.
Mundo47 - Ficou alguma mágoa com o fim da banda? O que você sente em relação aos integrantes que saíram?
Indy Müller - Sinto saudade do Dani, nunca mais nos falamos. Eu e o Henrique ainda somos amigos, ele é ótimo e super talentoso, está gravando as composições dele, estou curiosa para ouvir. Quanto ao Thiago, convivemos muito tempo, dividimos quarto de hotéis sinistros, ficamos mais de 12 horas dentro de ônibus um do lado do outro, não tem como ficar com mágoa, ou tem, rsrs. Sempre seremos amigos. Fico é com ciúmes quando vejo ele tocando com a “Mascarados e Anônimos”, nem vou nos shows (risos). E me arrependo de não ter pedido pra ele em ensinar a tocar ukulele, mas eu roubei algumas coisas dele, afinador, cabos, tô no lucro.
Mundo47 - Agora você decidiu seguir sozinha? Me conte como será essa sequência da sua carreira?
Indy Müller - Não tenho nem idéia, por isso é legal. E eu não vou seguir sozinha, sempre que der quero mais gente comigo, sempre. Mas a minha energia vai ser pras composições, quero experimentar, quero aprender, adoro esse universo.
Mundo47 - Você vai continuar a apresentar o material da DOIS nas apresentações?
Indy Müller - Acredito que sim, não vejo problema nisso, mas tenho muitas músicas, preciso aprender a dar melhor acabamento para elas, caprichar mais, eu sou muito preguiçosa.
Mundo47 - Você continua com algum nome novo no projeto ou teremos a carreira “Indy Muller”, tipo voo solo?
Indy Müller - Acho tão brega esse lance de carreira solo, até parece que já fui famosa algum dia (risos). Sabe que eu não sei, eu queria um nomezinho legal, usar o meu me traz um pouco de desconforto, sei lá. Alguma sugestão?
Mundo47 - O que você tem preparado de material novo para essa nova fase? São músicas novas ou você vai pegar coisas da DOIS que nunca gravou?
Indy Müller - Algumas da DOIS, algumas novas. A grande diferença da DOIS eram os músicos, eles sentiam muito bem o que a música pedia, eu ficava feliz demais, demais. Eu quero compor coisas novas, adoro compor, eu fico trancada horas e quando termino corro pra mostrar pro meu pai, quando ele fica quieto é porque tá uma bosta (risos).
Mundo47 - Para compor, você tem alguma espécie de ritual? Qual o seu melhor estado de espírito para compor? Em quais situações?
Indy Müller - “Pé na bunda” é o melhor estado de espírito para compor, hahaha. Mas estou exercitando escrever em outras ocasiões, fiz uns sambinhas mais alegres, como diz minha amiga Fabíola Cani, tem que treinar. Eu pareço um pouco doida antes de compor, converso com meu violão (o Sushi), peço pra ele me dar uma força.

Mundo47 - O que você mais prefere falar nas suas músicas? O amor rende boas canções ou a desilusão amorosa?
Indy Müller - Eu sempre falo de amor, mas nem sempre é sobre relacionamentos amorosos. Uma vez fiz uma música pra minha amiga Ligia Estriga, e até tive o prazer de cantar com ela. Aliás ela devia voltar a cantar, é muito talentosa. E desilusão é sempre um prato cheio, mas normalmente eu me desiludo mais comigo do que com os outros, afinal a gente acredita no que quer e projeta muito as coisas. Esses processos internos sempre rendem composições, é um barato.
Mundo47 - E sobre a música catarinense Indy, como você avalia a cena atual em nosso estado?
Indy Müller - Cara eu não sei nada dessas coisas de cena, minhas idéias são um pouco furadas sobre isso.
Mundo47 - Você acha que Florianópolis é um bom lugar para fazer o que você faz na música? Tem planos de ir para outro estado, como SP?
Indy Müller - Todo lugar é um bom lugar quando te inspira. Pra mim aconteceu assim, quando eu era adolescente eu tocava e dizia que só queria curtir, sem pretensão. Depois mais grandinha eu tive esperança, fiquei mais atenta. Agora que estou mais velha tenho a leve sensação que o “bonde” passou, então volto a ser adolescente e dizer que quero curtir, sem pretensão. Mas isso não quer dizer que não vou fazer as coisas acontecerem. Eu fico feliz com pequenas conquistas, enquanto eu não perder isso, ta valendo.
Mundo47 - Cite bandas catarinenses que você acha que vale a pena ouvir?
Indy Müller - São muitas bandas, muitas eu ainda nem consegui ouvir. Eu lembro que quando cheguei a Floripa me mostraram os dois primeiros discos da Tijuquera, eu fiquei alucinada com aquilo, achei muito bom. Sou fã da Cassim e Barbária, me sinto uma minhoca perto daqueles caras. Gosto de Motel Overdose, Os Skrotes, Produto, Gustavo Cabeza, Somato. Também tem uma galera da MPB mandando muito bem. Desejo sorte e trabalho pra todo mundo.
Mundo47 - Quando começam suas apresentações neste novo projeto? Quais músicos vão seguir com você? Fale um pouco.
Indy Müller - Tenho algumas coisas agendadas já, algumas vou fazer sozinha e outras o Bernardo Menezes vai me acompanhar na percussão. Estou começando as gravações com tranqüilidade. Mas vou divulgando tudo.
Mundo47 - Você vai fazer alguma coisa neste final de semana? Eu vou pra Floripa, vamos jantar juntos?
Indy Müller - Só se você pagar a conta.
FOTOS: MARI BLEYER
ROUPAS: LOJA VARAL