

O que dizer da noite do último domingo, 07 de novembro de 2010? No gramado do estádio Beira Rio, em Porto Alegre, eu fui uma das 50 mil testemunhas de uma apresentação fantástica de Sir Paul McCartney, ex-beatle, com uma carreira solo sólida e recheada de hits. Aos 68 anos de idade, o baixista encantou toda uma platéia formada por várias gerações. Gente que viveu a época áurea dos Beatles, gente que com o término da banda, aprendeu a gostar da música de um dos maiores compositores da música pop de todos os tempos e que está até hoje na ativa.
Antes dos show, tive um histórico de algumas horas de ônibus até a capital gaúcha, chegando por lá ainda de manhã cedinho, com muita gente durmindo em barracas na fila do estádio. Depois de uma longa caminhada para achar um lugar para se tomar um café decente naquela região do estádio, peguei a primeira fila do dia. A do ingresso. A portaria abria só às 10h, portanto, fiquei boas duas horas lá esperando para pegar o ingresso para o gramado comum do show. Graças a Deus na hora que abriram os guichês, tudo foi rápido. Depois ainda deu tempo para dar uma socializada com companheiros do Tschumi/Costeletas, lá de Rio do Sul, que haviam acabado de chegar de Santa Catarina e estavam indo para o hotel. Mais uma pernada, um almoço no Shopping Barra para recarregar as baterias, pois a partir das 13h, eu iria para a fila do setor que eu deveria entrar.


Com o sol a pino, um calor infernal, o povo beatle começava a se achegar para esperar a abertura dos portões, prevista para às 17h. Para resistir ao calor, protetor solar, guarda-chuva e muita água. Se não fosse minha companheira de rock trip, Isabel Müller, levar o protetor, eu ia torrar de vez. O ruim ficar numa fila interminável é o tédio. Logo o papo acaba, a opção foi ouvir música, Paul para variar e ficar olhando o movimento de pessoas, milhares de pessoas com a camisa dos Beatles passavam por ali. As mais variadas figuras, trajes, idade, tipos, uma completa aldeia cultural roqueira em homenagem aos fabfour.
Entre os que transitavam na minha frente, figurinhas carimbadas do rock and roll. Mas uma me chamou a atenção. Marco Antônio Mallagolli, uma bílbia viva dos Beatles, caminhando tranquilamente em direção a fila da área VIP. Esse não pude conversar, mas para quem não sabe, Marco esteve com os 4 Beatles, tirou foto e tudo. Com John Lennon esteve acampado na porta do Dakota em 1980, antes dele ser assassinado. Outra figura beatle nacional importante foi o Zé Lennon, presidente do The Beatles Fã Clube, lá do RS. Foi legal bater um papo rápido com Zé Lennon e finalmente conhecer ele pessoalmente. Faltou o JC, o cara que faz o site Beatles Brasil.


Para suportar o calor, água, nem cervas eu tava animado em tomar, queria é entrar. Lá pelas tantas, aparece na nossa fila, Marcos Espíndola, o mestre da Contracapa do Diário Catarinense. Marquinhos foi lá especialmente para cobrir a visão catarina do show de Paul. Depois de um papo com Marquinhos passando minhas impressões sobre o momento histórico que estava vivendo, o gajo foi atrás da puta, digo, da pauta, e encontrou outras novidades. Tudo isso registrado no blog Contraversão, que divide com outro mestre, Renê Müller.
Bom, a hora da abertura dos portões foi chegando e a organização que parecia exemplar no início, morreu no caminho. Os tais “organizadores”, colocados pela organização na parte de fora do estádio, sumiram. Ficou a anarquia de quem fazia fila. Furar ou não furar? Eis a questão? E olha que tinha gente há dias lá. O negócio foi um empurrãozinho aqui, uma discussãozinha ali, bom, eu me esquivei delicadamente, conseguindo finalmente entrar no gramado do estádio do Esporte Clube Internacional, o Beira Rio. Foi uma visão do oásis, pois ali era o palco que em instantes um mito da música iria se apresentar, Sir James Paul McCartney.


O negócio foi arrumar um bom lugar, sem antes tomar a merecida cerveja gelada e um energético para aguentar o tranco. Fiquei quase na cerca que separa o pessoal do aparteid, onde eu estava, do pessoal da raça superior, ou melhor, os caras que pagaram R$ 500 paus para estar lá. Tudo bem, negócio foi ficar lá e esperar.
Passava pouco das 21h quando Paul MCartney entrou triufante e sob gritos fortes no palco do Beira Rio. Com os acordes de Venus and Mars, confesso que não consegui segurar lágrimas, afinal, estava à frente de um ídolo de infância, desde 1988 ouvindo Beatles e sonhando com a maior banda de todos os tempos. Paul entrou impecável, sorrindo, mostrando que aos 68 anos, é uma máquina de fazer hits, de encantar platéias e que deixa as pessoas que estão à sua frente, hipnotizadas de tanto prazer musical. Era Paul McCartney, era um ex-beatle na nossa frente, cantando seus maiores sucessos com os fabfour e seus maravilhosos sucessos da sua brilhante carreira solo. Venus and Mars com Rock Show foi pra matar e levantar a platéia, que de impaciente, estava sorrindo aliviada, chorando tanta espera, tantas lágrimas, tantas lembranças do passado, era Paul e não adianta vir aqui dizer: “pra que babar tanto ovo?” vai aprender sobre Beatles meu caro.


Totalmente inspirado por voltar a tocar no Brasil, sir Macca ensaia palavras na nossa lingua. A empolgação é tanta, que Paul tira da cartola várias gírias típicas do povo gaúcho, como “mas bah”, “tri legal” e o famoso bordão de torcida “ah eu sou gaúcho”. Tinha horas que o show parecia acontecer em outro país, não no Brasil, mas enfim, o show continuou com a abordagem de Paul para hits de sua brilhante carreira solo, com Jet, fazendo o público ir ao delírio. Logo em seguida, a banda ataca com All My Loving, da fase yeah, yeah, yeah dos Beatles, deixando os mais saudosistas com lágrimas nos olhos. Letting Go é outra que arrebata a galera, seguindo de uma paulada com Drive My Car, ali o público que já era de Paul, era ainda mais dele. Não precisou muito, tu vê, precisou da velha receita. Dar ao público o que ele quer. E é esse serviço que Paul sabe fazer muito bem.
O show segue com a desconhecida Highway, do trabalho Firemen, indo para Let Me Roll It. Na primeira ida ao piano, Paul joga sujo com o público, mandando uma excelente performance de Long And Winding Road, ali fudeu tudo, as pessoas estavam hipnotizada, vendo seu maior ídolo tocando as melhores músicas, uma seleção de respeito, para um homem como Paul, tocar três horas uma sequência de hits é fácil, duro é nós, reles mortais, saber que se quiser, Paul toca um dia inteiro, dois dias, só de hits. Ainda ao piano, 1985 é executada, o cara é foda. Nessa ainda rolam Let me In e My Love, esta última, em português, dedicada aos namorados e que havia feito para sua “gatinha Linda”, em referência a sua falecida mulher, Linda McCartney.


Mais uma mudança de instrumento e ao violão, sir Paul começa com uma música duca, do Help, I´ve just seen a face. Mais Beatles e música pra derreter o coração da mulherada, And I Love Her. O coração começa a pesar com a excelente e emocionante execução de Blackbird, a música mais preferida entre os fãs novos dos Beatles. Na primeira homenagem da noite, a música que Paul fez para John logo após a sua morte, em 1982, que entrou no álbum Tug Of War. A música fala por si só, emocionante, deixando o povo fixado no telão vendo fotos de Lennon e lágrimas correndo os rostos. Com uma espécie de cavaquinho, Paul já levanta a galera com Dance Tonight e depois, do álbum Band on The Run, a música Mrs Vanderbilt.
Eleanor Rigby foi outro show, com belas imagens mesclando o som, o telão bombava de criatividade da equipe de vídeos da turnê Up and Coming Tour. Na segunda homenagem da noite, o ukelele chega à mão de Paul, que inicia uma emocionada versão de Something, de George Harrison. As imagens do beatle quieto toma a tela, mais choro, mais emoção , “haja coração”, diria aquele locutor chato da Globo. É meu amigo, sir Paul é um sujeito incansável, eu já to podre em escrever, imagina ele tocando quase 3 horas de rock. Não parou por ai, também do trabalho Fireman, Sing The Changes, levantando o povo mais uma vez, uma sequência boa com Band on the Run, com o povo gritando em coro as letras com a banda. Até Obla Di Obla Da entra na parada. O rock beatle não para, I´ve Got Feeling, Paperback Writer põe mais lenha na fogueira, depois, calmaria e viagem ácida com uma versão para A Day In The Life, tradicionalmente na voz de John Lennon, mas que casou com Give Peace a Chance, toura homenagem ao parceiro dos anos 1960.


De volta ao piano, o primeiro gran finale , a sequência emocionante, explosiva com Let it Be, Live and Let Die e Hey Jude. Na primeira, “mother mary comes to me, let it be”, velas no telão, isqueiros e celulares nas mãos e o público em coro: “Let it Be, Let it Be”. Depois, o famoso tema de 007 criado por Paul para os Wings em 1973. Live and Let Die, literalmente explosiva. Fogos de artifício, muito fogo, temperatura altíssima, um show para a história de Porto Alegre. Com os corações alucinantes, a calmaria reina em Hey Jude, o coro de nananana´s nunca foi tão forte, tão apaixonado, Paul cumpriu seu papel. O ingresso não foi caro, deveríamos ter pago mais, o show foi completo. A volta ao palco era certa, os gaúchos, grande maioria, não paravam com seu nananana, Paul estava de volta para mais!
Antes um cartaz na platéia chama a atenção. Duas meninas, uma de Porto Alegre e outra de Floripa diziam: “Paul, assina nosso braço, queremos fazer uma tattoo da sua assinatura”, pronto, o Beatle atendeu ao pedido, e as duas garotas foram levadas para o palco do Beira Rio, perante 50 mil pessoas, elas e o ídolo. A inveja e orgulho tomam conta destas pessoas, a vaia para a menina que disse que era de Floripa, até passa batida, se ela falasse que era do Acre, iriam vaiar, enfim, tolo quem vaiou, a moça saiu com um abraço do Paul e a assinatura no braço.


Em dois bis, Paul McCartney mandou ainda Day Tripper, Lady Madona, Get Back, Yesterday e fechou sua apresentação com pauladas, como Helter Skelter, botando o Beira Rio abaixo e Sgt Peppers Reprise + The End, duelo de guitarras entre Paul e seus músicos. Depois de três horas e tantas emoções, o público estava “tri” alegre e em êxtase, tudo saiu como planejado. Som bom, tudo correto, Paul McCartney não parou de elogiar a audiência, ou seja, o público, com certeza sua passagem por Porto Alegre não foi em vão, Paul não esquecerá uma recepção tão calorosa e carinhosa do povo gaúcho. O dia foi lindo do começo ao final. Avião com faixa dando boas vindas, esquadrilha da fumaça de uma cia telefônica, o dia era para o bem, para o rock, para os hits de Paul.
Eu terminei minha participação exausto, porém extremamente feliz. Saí de lá meio sem acreditar que eu havia visto ao vivo, em cores, há poucos metros de Paul McCartney. Eu fui!
Na volta, mesmo com dores, a alegria foi imensa. Cheguei em Floripa cansado, mas revigorado.
É isso, a vida continua e o segundo round será dia 21 de novembro, quando vou estar em São Paulo, assistindo a segunda apresentação no Brasil.
Wrock!!!!!!

